Os filhos de Bazárov

Raskólnikov, Samsa, Meursault, ou quem sabe os irmãos Ivan e Dmitri Karamazov, não são os patriarcas de nossa civilização, como fazem crer alguns teóricos conservadores indignados com a civilização de hoje. Não, o pai dos últimos séculos chama-se Eugênio Vassílievitch Bazárov. Todos os outros supracitados são apenas versões diminuídas da força destruidora desse demônio niilista.

Sua negação não reside em fórmulas prontas, de um nietzschianismo barato, na qual somos livres para afirmar os valores que bem entendermos (desde que tenhamos força para tal), nem ao menos em sua expressão logicamente contraditória, “não há nenhum princípio”, tão apreciada pelos pós-modernistas. Absolutamente! Sua força niilista reside no fato de afirmar o que considera útil em detrimento de fórmulas sociais potencialmente inúteis. É o naturalismo realista contra o idealismo romântico. Dessa forma, torna-se significativamente simbólico o apego de Bazárov à medicina e química.

A luta de Bazárov é contra a aristocracia, o formalismo opaco, o casamento, a poesia (ou qualquer outra forma de arte, como música e pintura) e totti quanti a época romântica da civilização ocidental tanto idolatrou. Seu bisturi é cruel, estando disposto a dissecar o cadáver com a devida neutralidade científica. Para ele a natureza, vista de fora pelo observador neutro, essencialmente científico, é o que há de mais verdadeiro no mundo. Explica o comportamento humano através de regulações hormonais e de certos tipos de combinações de elementos químicos. Nada muito diferente do que o faz a contemporânea psicologia e neurociência.

O apego que o senso comum de hoje possa ter a certas crenças que muitos julgariam irracionais (clubes de futebol, Deus, partidos políticos) não constitui um exemplum in contrarium contra a influência de Bazárov em nosso círculo ocidental. Tais crenças são acompanhadas de um vazio existencial e incrementadas com o mais requintado naturalismo. Explicamos nossas ações através da biologia, como o fazia Bazárov. Mas se isso é opaco de mais, desprovido de qualquer sentido último, apegamo-nos a uma crença qualquer para forrar nossas lacunas interiores.

“Veja o que estou fazendo agora: nesta mala há um lugar vazio que eu encho de palha. Assim também na mala da nossa existência: basta enchê-la de qualquer coisa, só para que não haja vazio”.

Contudo há algo pelo qual Bazárov não escapa, e talvez seja esse o princípio fundador da espécie humana: a contradição interior. Ao apaixonar-se pela Sra. Odintsova, viu em si mesmo o terror da fraqueza da geração anterior: o romantismo. Detestou-se! Mas o ódio contra si mesmo não era apenas pela fraqueza apresentada e sim também pela rejeição da digníssima senhora. O maior dos niilistas apaixonou-se como um pateta romântico e fora rejeitado. Isso era o cúmulo para Bazárov. Seu triste fim deu-se por conta de sua própria contradição. Detestava os antigos valores, mas não conseguia desvencilhar-se deles. Não viu escolha a não ser tornar-se um simples médico de província, seguindo os passos do pai.

Arcádio, o grande amigo e discípulo de Bazárov, escapa dessa terrível contradição. Contudo, escapa apenas em partes, e única e exclusivamente por aceitar ser domesticado. Vemos em Arcádio os desdobramentos do pensamento de Bazárov, sendo que aquele viria a ser um braço de nossa contemporânea civilização: o apego da burguesia ao conforto, ao lar, a uma espécie de hedonismo familiar; em suma, a vida mansa e tranquila.

“Vocês, nobres ou burgueses, não vão além da generosa submissão ou generoso entusiasmo. Tudo isso é ninharia. Vocês, por exemplo, não brigam e se consideram valentes e dispostos a tudo. Nós queremos brigar. Para que discutir? Nosso pó é capaz de causticar-lhe os olhos, nossa imundície pode sujá-lo e você não cresceu ainda suficientemente para concordar conosco, porque aprecia muito a sua própria pessoa e lhe é agradável censurar ou acusar a si mesmo.”

Arcádio é o princípio da síntese dialética entre pais e filhos, entre a geração romântica e a naturalista. Nós todos somos, cada qual, filhos dessa síntese, mais apegados ao niilismo de Bazárov do que ao romantismo idealista. Temos muita palha à disposição para colocarmos na mala da nossa existência. O que consumimos todos os dias, as relações mais ou menos banais que temos e nossos pequenos projetos de vida não passam de uma forma de preencher-nos. Quem conseguiria viver com tantas lacunas, olhando a vacuidade do seu próprio devir? “O único devir é a morte”, disse uma vez Fernando Pessoa. Toda a palha que utilizamos para preencher nosso ser será queimada pelo fogo eterno chamado tempo, inevitavelmente. Mas temos que preencher a mala. Fora disso há apenas paralisia e morte!