Irmão bastardo

Não se pode negar que nos aproximamos muito mais do Diabo do que de Deus. Sempre intangível, sempre acima e abarcando todas as coisas, Deus nos escapa como algo infinitamente mais e infinitamente impossível. Já o Diabo, com toda a sua baixeza, revolta e sofrimento têm no olhar um brilho genuinamente humano. Nada nos parece mais humano do que todos os pecados — e não haveria mais humanidade para além do inferno de Dante. — Se regressássemos aos primórdios, se pudéssemos ser um dos primeiros anjos de Deus; muito antes da existência dos seres humanos; quantos de nós não ficaríamos ao lado do Diabo em sua revolta celestial? A muitos isso pode gerar aquela náusea fingida de quem nunca pensaria em tal barbaridade, mas até nisso nos parecemos com o Anjo Caído: na mentira interior, na falsidade; na tentativa de se parece infinitamente bom.