Raison d’être

Na total solidão, contemplo a imensidão do cosmos e lanço-me a imortalidade do Nada. Chegamos até aqui, segundo nosso mais requintado mito da criação, através de um processo algorítmico, não intencional; uma seleção natural totalmente mecânica e desprovida de qualquer tautologia. Dessa forma, espanta-me a ideia de subjetividade como algo provido desses genes egoístas (como gosta de chamar o biólogo inglês, ao qual recuso-me dizer o nome). Somos como máquinas que pensam, dotados de intencionalidade e de um elã interno que pode se lançar para o infinito; para além da morte física. Se todo esse elã, toda essa força subjetiva que consome os seres humanos; lançando-os, por vezes, às raias do suicídio; for apenas um mito útil ao qual a seleção natural (seja lá o que isso significa!) nos deu, a pergunta fundamental é: por que esse mito? E, principalmente, para quê? Se nossa vida é um ponto ínfimo num continuum Nada, para quê toda essa preocupação? Matamo-nos, amamos e sofremos, e isso é totalmente real por dentro e não vejo nenhuma vantagem evolutiva em ter tais sensações – muito mais útil seria estar numa total alegria ébria, sem preocupações com Deus (o último chato) e o infinito. – O propósito dessa vida absurda é aceitar a própria absurdidade das coisas, deleitar-se nessa falta de sentido para, no fim, abraçar o Nada. Muito mais glorioso seria seguirmos como gorilas inconscientes, robôs biológicos sem intencionalidade intrínseca, sem esse elã interno para nos importunar. Nesses momentos sublimes, ao qual saboreio as últimas tragadas de um belo cigarro, vibra até a última célula de meu cérebro as palavras de Cioran: “Posto que não há salvação no Nada nem na existência, mando este mundo aos diabos, junto com todas as suas leis eternas!”