Amor e seleção natural

Olhando pela ótica rutilante do mito fundador contemporâneo, percebemos que a metafísica do amor não é nada senão um engano na fruição do espírito; bufonaria grotesca de seres capazes de criar fantasmas. O desejo que sentimos por outros seres humanos apenas revela nosso instinto primordial de conservação da espécie. Nada além de um joguete através do maquinismo dinâmico da vida. Buscar a perfeição de um corpo, a beleza através da força muscular ou a pretensa inteligência humana, mostra apenas que queremos, acima de tudo, que nossos descendentes sejam mais capazes, mais letais; mais aptos a sobreviverem nesse admirável mundo inconsciente e hostil.

Quando questionamos o porquê dos seres mais estúpidos e mais avessos a arte, filosofia, moral (e tutti quanti nosso requinte inutilmente consciente pôde criar) conseguirem perpetuar a famigerada espécie humana com uma facilidade absoluta, concluímos que tais seres (a revelia de sua pretensa estupidez) estão muito mais voltados à realidade das coisas do que qualquer intelectual que nossas mesas de bares já puderam criar. Eles seguem o duro e penoso caminho da seleção natural com muito mais violência e competitividade do que qualquer outro ser pretensamente esclarecido.

E as dores que sentimos após sermos rejeitados por outros seres humanos apenas nos transporta para nossa história de angústias evolutivas. Sentimo-nos rasgar o coração como um lobo se sente ao ser expulso da matilha; como um macaco dominado pelo líder do bando. Sentimos as angústias do amor, pois nos pesa as pressões de milênios de evolução. Acreditamos, naquele momento sui generis de dor e desamparo, que não fomos capazes de dar continuidade a espécie; que fracassamos em ser aquilo que a natureza nos mandou ser.

Apenas aqueles que conseguem superar essa angústia amorosa se tornam aptos para gerar descendentes e continuar com a loucura humana. Tais serem passaram no teste da seleção natural e estão capacitados a criarem seres mais fortes emocionalmente, mais inteligentes e mais capazes de esmagar indivíduos mais fracos. Talvez aqueles que sofram em demasia, não apenas com as dores do amor, mas sim com as dores da vida, estejam fadados a extinção. Vislumbro, num futuro próximo, através de milhões de anos noturnamente inconscientes, que os próximos humanos apenas tenham os genes de felicidade, prosperidade e fraternidade que seus descendentes estritamente evoluídos os legaram. O futuro da espécie depende dos seres que podem ser aquilo que são: animais quase inconscientes.

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Não é possível que um ser como eu, com tal constituição deplorável, que envenena e amaldiçoa toda a raça humana, possa perpetuar tamanha miséria. A evolução fará com que eu, e mais alguns poucos seres miseráveis, deixem de existir o mais rápido possível. Tais indivíduos são uma desgraça para a espécie, uma anomalia; um desvio formidável das constituições normais. Se seres como eu (que ao invés de cuidar dos descendentes, é capaz de devorá-los vivos) perpetuasse a espécie, que futuro poderíamos ter? A sábia evolução cuidará logo de mim, assim como de mais tantos outros imbecis que insistem em atear fogo nas catedrais da raça humana.

E a rejeição que os infectados pelo vírus niilista recebem de outros seres humanos deve ser interpretado como algo natural. Algo completamente inevitável; um simples instinto reflexo daqueles que ainda querem sobreviver. Não devemos culpar as pessoas ― que exibem constituições totalmente diversas, incrivelmente otimistas ― de terem uma repulsa visceral pela depressão do espírito. Contudo a angústia niilista não provêm da impossibilidade do amor, ou da rejeição recebida dos outros, mas sim do vislumbre de sua própria aniquilação. Prevendo a extinção de tamanha ideia maligna, de famigerada espécie suicida, não há mais condições de sorrir frente aos encantos mais simples da vida. Resta, para tais seres inúteis, apenas a espera tediosa do fim iminente. A marcha incessante para lugar nenhum. O turbilhonante espetáculo do vácuo dinâmico do mundo!

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