Ciência e progresso

Muito mais do que todos os negadores, transcendendo a qualquer cético ou niilista, a filosofia científica é a maior das rebeldias. Ela lança chamas a realidade comum, destrói o misticismo e atira ao precipício todos os poetas. De todas as empreitadas humanas, não houve nenhuma que fosse tão violenta, tão rude e tão devastadoramente sedutora. O ideal da racionalidade científica, que ganhou forma e força há mais de trezentos anos, segue firme em sua marcha rumo a destruição de todos os antigos valores. Assustadoramente nietzscheana, a ciência impõe as novas verdades a ferro e fogo, lançando ao mar de chamas da idiotice, irracionalidade ou loucura mesmo, todos aqueles que ousarem por em dúvida seus métodos e conclusões.

A discussão que se trava entre os experts da ciência de hoje é apenas uma aparência de debate democrático. Não há opiniões estruturalmente divergentes. Todos concordam no essencial, havendo divergência apenas nos detalhes. E tais detalhes são tomados como um estupendo diálogo; a vida mesma da filosofia científica… aquilo que a faz caminhar e superar suas dificuldades. Contudo, não pode haver efetiva diferença, isto é, efetivo debate, sem que essa diferença seja estrutural.

A queda que a intelectualidade moderna (aqueles que conduzem político-culturalmente essa famigerada raça) legou para todos nós é incalculável. Vislumbro a ilusão das próximas gerações, do controle absoluto sobre a sociedade e natureza, da potencialização dos sentidos e da indústria da felicidade trabalhando a todo vapor. Minha única tristeza é que, muito provavelmente, não estarei vivo para contemplar tamanha miséria. Devo contentar-me com a minha própria e de meus contemporâneos, que ainda podem acreditar no livre-arbítrio, mente e (para alguns atrasados) alma imortal. Muito em breve todos esses itens serão confiscados pela ciência e lançados para a lata do lixo da história dos conceitos. E acreditaremos que houve progresso. Mas que diferença substantiva haverá entre nós e os futuros privilegiados pela nova razão? Ademais, que diferença há, além dessa infinidade de bugigangas que criamos, entre nós e os homens-de-neandertal?