País do futuro

“É natural no homem o desejo de conhecer”, diz Aristóteles no início da Metafísica. Essa frase deveria perturbar profundamente o espírito nacional. Contudo, com muito mais frequência já observei em mim, e em meus compatriotas, a mais obtusa ignorância do que as luzes encantadas do conhecimento. Então, do que, ou de quem, falava Aristóteles? Levei algum tempo para entender o que essa “simples” frase queria dizer. A conclusão parcial que cheguei é que em nós, seres humanos, há uma possibilidade de inata conhecer. É uma das possibilidades humanas ter o desejo, o anseio, um desespero em conhecer. Mas essa possibilidade, em muitos casos, permanece latente em nosso espírito. Ela deve ser despertada por alguém ou algum evento. Mais adiante, na própria Metafísica, o velho filósofo diz que “o conhecimento começa com o espanto”. O espanto aqui não tem a conotação corriqueira que o significado dessa palavra traz. Neste caso, é a percepção de uma mudança na ordem natural das coisas. Por exemplo, quando os primeiros químicos se perguntaram “de que é feita matéria?” eles sofreram esse espanto. Eles perceberam que as teorias convencionais não eram suficientes para uma explicação mais satisfatória de como as coisas funcionam. Mas também o espanto pode vir também de fatos corriqueiros. Por exemplo, quando observamos as consequências da greve policial no Espírito Santo, podemos ficar espantados nos dois sentidos (convencional e filosófico). Tais fatos nos levam a uma série de questionamentos sobre a segurança pública, violência, poder etc.

O brasileiro tem se espantado no sentido que Aristóteles empregava a palavra? Infelizmente creio que, na maior parte das vezes, somos tomados de assalto pelo espanto mais banal e corriqueiro de todos (nos assustamos, apenas, com algumas situações). Então o que acontece conosco? Por que, em geral, não temos esse chamado para o conhecimento? Obviamente que não tenho uma resposta para essa questão. Mas um diagnóstico prévio pode apontar para uma falha em nossa educação, que vem desde a educação doméstica, passando pela educação regular obrigatória e por toda a rede que constitui a chamada cultura nacional. Somos educados a nos preocupar com o imediatismo e não deveríamos nos surpreender quando uma moda qualquer (cultural, social ou seja lá o que for) nos pegar de surpresa.

Esse país não precisa de um governo de direita ou de esquerda. Precisa de pessoas mais inteligentes, mais preparadas, mais capazes de resolver as situações da maneira mais eficaz. Se não, continuaremos sendo apenas a sombra do mundo, importando modas intelectuais e achando que, com isso, somos muitos cultos, muito inteligentes… enfim, o país do futuro!