IV – As meninas

Pintor está entediado. O cavalete em sua frente está vazio. A tela foi roubada. Que faria? Havia outras sete pinturas que tinha finalizado, mas poderia se distrair com elas, acrescentando detalhes ou aperfeiçoando traços. Uma obra nunca está pronta e acabada aos olhos do criador. Sabe que a única maneira de garantir o acabamento é não voltar à obra. Os olhos do artista mudam e o que era, não lhe agrada mais. É preciso corrigir, mudar, fazer alterações. Ainda tinha a questão da inspiração… está focado no trabalho perdido, de modo que é difícil começar um novo ou mexer nos antigos.

— Espero que Liberdade tenha sucesso — diz a si mesmo, embora não esteja sozinho.

Em sua frente há uma criança recebendo uma jarra de barro em uma bandeja. Ela é graciosa, veste um luxuoso vestido branco com detalhes em vermelho e preto. Tem olhos grandes e negros, uma boca pequena e os cabelos dourados. Todos a conhecem como Infanta. A sua esquerda está quem a serve. Chama-se Maria Augustina, é adolescente, magra, veste cinza e tem os cabelos na altura dos ombros, enrolados. Treme ao oferecer o pequeno recipiente de barro à Infanta. À direita há outra criança da realeza, Isabel. Ela faz reverência à Infanta que é o centro daquele universo. Logo atrás de Isabel está Marcela e Diego, que conversam o que não pode ser ouvido. Ao fundo, deixando ou entrando no salão está José, parente de Pintor. Na ponta direita há Mari, anã, outra criada da Infanta. Ela está acompanhada de Nicolasito que tem o pé esquerdo sobre o cão, a figura mais próxima do começo da tela. Refletidos no espelho, ao fundo da sala estão Rei e Rainha.

— Por que tenho sede?

A voz de Infanta é bela. Ela por si só é uma obra de arte que encanta Pintor. Entretanto, nunca lhe dirige a palavra. Fala com seus criados. Maria Augustina se limita a buscar a água, Isabel a reverenciá-la.

Apenas Pintor sabe a resposta. Ele a fez assim; ele a criou para ser servida, mas não pensou nas consequências. Para ser servida é indispensável desejar o serviço. Por isso, Infanta sempre tem sede. Sua sede é o que mantém todos ocupados.

— Criar é uma maldição — ele diz.

Um menino empunhando duas pistolas esbarra em José. Ele entra no salão puxando os gatilhos das armas. A jarra de barro de Infanta se espatifa no chão. Pintor o puxa pelo braço.

— E então?

— Nós a pegamos.

— Falou sobre a tela?

— Ela resistiu por mais do que tínhamos previsto, mas ao final cedeu.

— Espero que não tenham danificado minha criação!

Menino faz silêncio.

— Liberdade a machucou?

— O senhor sabe como ela é.

Pintor suspira. Leva a mão ao rosto. Diz:

— Traga-me a Pintura.

— Liberdade já está no mundo das joias para trazê-la.

O chão é frio. Há outros corpos pelo chão. Todos se foram. Ainda não sabe definir o que lhe aconteceu, apenas pode dizer que pedaços de si foram arrancados bruscamente por Liberdade. O cheiro de tinta impregna o ambiente. O meio do seu corpo está aberto e uma massa pastel, coagulada se espalhou pelo chão. Sua vestimenta foi rasgada, seu rosto desfigurado, um braço arrancado. Liberdade a terrível criatura que a fez falar. Ainda tenta se mover, não tem forças. Os seus olhos se fecham.

Os olhos se abrem. Há música. A canção é reconfortante. Está em casa; está no seu espaço, nos braços de Conde. Eles dançam. Não consegue evitar o sorriso. Ele retribui e é o mais lindo que ela já viu. Ao centro Noiva está deslumbrante nos braços de Príncipe. Alguns a observam com inveja. O mesmo vento, as mesmas cortinas. A lareira que nunca será acesa. Tudo isso é maravilhoso. Ainda é incapaz de se lembrar dos acontecimentos recentes. Até mesmo do nome que escolhera com tanto esmero. Todos ali estão alheios ao que ocorre naquele momento.

Não há mais joias enfeitando Noiva.

Os passos de Ainda cessam quando ela percebe a falta dos adornos de Noiva. Conde tenta forçá-la à dança, mas ela lhe pede licença. Aproxima-se da dama de branco no centro do salão que, ao vê-la, interrompe seu baile e a abraça. É um abraço forte, verdadeiro e intenso.

Uma sombra interrompe o trabalho de Ourives. Ele levanta os olhos, sabe a identidade do seu visitante. Eles se conhecem há muito tempo.

— Você quase a perdeu — diz Pintor.

— Não é curioso? Você a criou e acha que eu a perderei?

— A ideia de joias é sua. Sabe que outras criações minhas estão interessadas, não sabe?

— Você cria obras fantásticas; seres incríveis, mas não consegue perceber a essência do seu ofício. Suas criações não notam que é preciso ser solidário…

— Solidário? A beleza é a única coisa que importa!

— Quando inventei os adornos para sua Noiva não o fiz para deixá-la mais bela. Fiz com o intuído de mostrar a ela um mundo que sofre e precisa de ajuda. Embora ela seja por sua própria natureza incapaz de ajudar, sentiu-se responsável. Veio ter comigo a respeito, dizendo que amava usar as joias que eu tinha lhe feito, mas não suportava espiar o mundo de cada uma. Sugeri que emprestasse alguns anéis para a cortesã sua amiga. Ela seguiu minha sugestão e Ainda, sob minha orientação, começou a interferir no mundo dos que sofrem. Ela é a primeira obra sua que está aprendendo a ter compaixão.

— Bobagem! Ela não pode ser o que não foi concebida para ser!

Ourives ri. Depois diz:

— Note os acontecimentos recentes. Se Ainda fosse incapaz de ser diferente do que foi criada para ser, teria lhe roubado o quadro?

— Quero que guarde suas joias. Elas são perigosas.

— O farei sob a condição de que você repare o quadro. Devolva os traços de Ainda e de todos.

— Eu o farei.

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