Diário

DIA 1
Ao longe vejo as bandeirinhas. O vasto campo que se estende sob meus olhos está coberto de bandeirinhas e de pessoas. O número delas quase se confunde. Em todos esses anos de treinamento eu não pensei ser um popstar. Nunca tive a intenção de falar para as massas nem de ser um modelo. Mas a natureza das minhas funções me colocou numa posição em que tais consequências são inevitáveis. Olho para o painel que, natalinamente, pisca diversas luzes. Vão começar a contagem.

DIA 14
A Capitã Milles está no fundo da nave, observando os mantimentos. As primeiras duas semanas foram marcadas pela adaptação inicial e por momentos inesquecíveis, como ver o brilho das estrelas mortas sem a atmosfera para atrapalhar ou contemplar o momento dos corpos celestes.

DIA 42
Após passarmos por uma nuvem de detritos tive que sair para consertar alguns sensores. Foi a primeira vez nesses cinquenta e dois dias que saí da nave. A sensação de paz é imensa, como prisioneiros que são libertos ou que fogem da prisão. Capitã Milles adoeceu no começo do quinquagésimo sexto dia e teve que repousar boa parte do tempo.

DIA 78
Existe um botão, no meio do mar de botões, que me chama atenção. É o CEZ. Comunicador Emergencial Zetta. Ele tem uma cor vinho, como nas antigas válvulas de computadores e só pode ser acionado uma vez. Ele envia uma mensagem curta, de 15 segundos, para toda a parte do Universo. Uma coisa cara e inútil, já que as comunicações evoluíram muito e consigo ainda falar com a base sem qualquer problema. O botão me incomoda, pela cor, pela inutilidade e pela sensação de que só usarei uma vez. Talvez eu deva usar amanhã, nas comemorações de cem dias da viagem. Cantarei “Feliz Aniversário” para os alienígenas aprenderem nossa canção-símbolo. Que bobagem! Enquanto eu penso nas comemorações, a Capitã Milles está ainda doente. Já fizemos todos os procedimentos padrão que estão no manual. Qual será o próximo passo?

DIA 112
Capitã Milles está sofrendo cada dia mais. Os scanners  da nave são relativamente modernos, não são último tipo mas podem detectar a maior parte das doenças. Até mesmo câncer e é isso que eu não sei como contar à ela. A última imagem de seu interior é um borrão preto com alguns órgãos próximos. De alguma forma esses dias estão afetando a Capitã Owen mais rapidamente que na Terra. Não sei o que fazer, estamos na metade dos quatrocentos dias de missão e ela não parece ter forças para lutar. Não usei o CEZ. Ainda.

DIA 160
Capitã Owen está magra e sem cor. Quase sem vida. Posso ver a sua humanidade saindo de seus poros, dia após dia. Ela vem se transformando numa sombra de si mesma. Ontem dancei jazz! Quanta alegria, quantas lembranças. Do clube “Jocks”, de Marianne, do whisky… Ontem tive a verdadeira sensação de que não estou há quase dois anos nessa maldita nave. Me senti novamente em casa, me senti livre. Sinto pena da Capitã McGill. Ela está presa em si mesma, além da nave. Como seu caso é terminal, não estou mais alimentando-a. Ela não tem forças para pegar comida e eu não estou alimentando-a há três dias. Espero que isso a liberte.

DIA 162
A maldita Owen me mordeu. Cadela! Ela quase não conseguia mais falar quando comecei a dissecar seu corpo. Saber o funcionamento de uma máquina é importantíssimo para poder utilizá-la então resolvi abrir a Capitã McGill. Owen. Milles. A Capitã. Seus restos estão perto da dispensa. Faz sentido manter os restos de uma pessoa perto dos restos de comida. O cheiro podre da Capitã Milles está Owen se confundindo com o da comida estragada. Eu não tive culpa. Pedi para ela ligar o catalisador e a idiota não fez. Se ela tivesse feito eu teria dado uma anestesia na operação e talvez ela ainda estivesse viva.

DIA 163
Eu não sou um canibal. Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.Eu não sou um canibal.

DIA 164
Joguei os restos da morta no espaço. Vou deixar minha mensagem para a posteridade com o CEZ. Não aguento mais um minuto nesse lugar.

DIA 165
“Caro receptor da mensagem. Meu nome é… é… como é mesmo meu nome? Nossa, eu esqueci meu nome. Veja você, eu não sei meu nome, eu mesmo esqueci de mim. Vocês também se esquecerão?”

DIA 166
Mais de mil dias depois, acabo de me injetar seis doses de sonífero. Tenho poucos minutos de vida. Não sei se algum ser inteligente pegará essas gravações mas, se acharem, lembrem-se de quem fui.

DIA 167
Quando a máquina finalmente parou com seu longo e insistente apito, os dois entraram na nave.
– Ele já acordou?
– Não, ainda está dormindo – respondeu o oficial de menor patente.
– Em quanto tempo?
– Mais umas três ou quatro horas.
– Há tempo de limpar tudo e iniciar novamente ainda hoje?
– Senhor, ele já está na sétima simulação, há um desgaste muito… – foi interrompido sem pompa.
– Você quer dar um descanso para ele? Então vá lá na plateia e diga pra família da Capitã Jones que você vai dar um descanso para o homem que estuprou, esquartejou e se alimentou de uma colega.
– Era uma situação extrema, Comandante.
– Tenente, em qual simulação estamos mesmo?
– Essa foi a sexta, Comandante.
– E em quantas ele assassinou a sua colega de missão?
– Todas.
– Pois é, em todas, Tenente. Preciso dizer mais? Aplique o soro e coloque-o novamente na nave. Você não vai conseguir provar que seu irmão não é um bárbaro. E eu só preciso de mais uma simulação pra provar isso e mandá-lo para a câmara de gás.
O Tenente resignou-se e, abaixando-se, beijou seu irmão na face. Arrastou-o para fora e iniciou os procedimentos para um relançamento.

DIA 1
Ao longe vejo as bandeirinhas.

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