Jardim dos Enforcados

O sol castigava-lhes o rosto, enquanto caminhavam pela aridez daquela terra desolada. Recostaram-se à sombra de uma árvore semi morta. Aguardavam em silêncio, esperando que o sol baixasse; esperando que algum milagre acontecesse. A mulher limpou o suor de sua testa e sentou-se ao lado do homem, encostando a cabeça no tronco da árvore. Estavam semi nus, com o couro de algum animal a improvisando-lhes roupas. Mesmo assim o calor era intenso. A mulher dormiu no ombro do homem. Este permaneceu desperto, preocupado. Não sabia o que fazer, qual seria o próximo passo. Lamentava sua sorte miserável, de estar sob aquela terra pobre e seca. Estava faminto, mas não havia sinal de alimento. Aliás, não havia sinal de nada.

O homem não saberia dizer quanto tempo se passou, mas o sol já se punha no horizonte. De repente, como num soluço, ele saltou. A mulher despertou, num susto. Uma enorme serpente estava ao lado deles. Branca, com manchas negras por todo seu corpo, a serpente apenas os fitava. Não fazia movimento. O homem pegou um grosso pedaço de galho que estava sobre o chão. A mulher recuou, assustada. Contudo, olhando com mais calma, ela reconheceu a nefasta criatura.

− É ela, Adão. − disse, de repente − Foi ela que falou comigo no jardim.

Adão fechou o cenho. Então havia sido aquela criatura a causadora da desgraça de ambos. Ele segurou com mais força o galho que empunhava. Contudo, quando foi esmagar a cabeça da serpente, um forte brilho ofuscou-lhe. Adão caiu sentado na terra dura. Eva cobriu os olhos, tamanha força daquela luz.

O brilho cessou, e onde antes havia uma serpente agora estava um homem, semi nu, com uma roupa improvisada, feita da pele de alguma animal. Diferentemente de Adão, que tinha alguma beleza, esse novo sujeito não tinha encantos. Era simples, cabelo ralo e seco, pele rachada. Parecia muito mais triste que o casal, e muito mais miserável. Adão não compreendia o que aquilo significava. Permaneceu embasbacado, olhando para o novo sujeito.

− Pobre e triste espírito humano, onde Ele os deixou cair sobre este mundo miserável. − começou a serpente, que agora era homem − Veja em qual situação nos encontramos, irmão de desespero.

− Quem é você? − disse Adão, ainda impressionado com tamanha feitiçaria.

− Sou vosso irmão, caro Adão.

− Mentira! − gritou Eva − Adão, ele é a serpente. Não importa se esteja transformado em homem ou em mulher, ele continua sendo a serpente. Foi ele que nos fez cair.

− É verdade, tu és a serpente? Caímos por tua causa?

− Serpente? Queda? Ora, meu bom Adão, não crê em seus próprios olhos? Sou homem, como tu. Se não acreditas, pegue. − o homem-serpente estendeu o braço para Adão.

− Adão… − Eva estava angustiada. Adão, por sua vez, parecia receoso. Sentia que a qualquer passo em falso ele seria devorado por aquele estranho sujeito.

− Não preciso tocar-lhe, pois vi bem tudo que se passou. − disse Adão. O homem-serpente sorriu. − Vi que tu eras serpente e agora tu és homem. É isso que meus olhos me dizem. Nós, Eva e eu, não podemos fazer tamanha façanha. Então, quem és tu e o que queres?

O homem-serpente sorriu novamente. Eva permanecia angustiada. Sabia que aquela era a criatura que a havia enganado, então queria que ela fosse embora. Eva estava disposta até mesmo a lutar para que a serpente os deixassem em paz.

− Se queres saber quem eu sou, tua vida não serás suficiente para minha história. Mas saiba, irmão meu, que tua angústia é minha angústia. Estive ao lado d’Ele por tempo suficiente. Presenciei o funesto dia em que Ele criaste a criatura que seria a sua imagem e semelhança… o grã-senhor e a grã-senhora de todo o jardim. Eu sou aquele que, assim com vós, foi rejeitado por Ele. Sou o próprio desespero, a tristeza, a dor e o desastre universal. Então sou o único que me comprazo com a vossa dor e com o vosso desalento. Sou o lusco-fusco,  a luz e a treva suprema. Sou Lúcifer, príncipe deste mundo.

Adão permaneceu sério às palavras de Lúcifer. Eva permanecia ao lado de seu companheiro, acompanhando cada movimento do autonomeado príncipe daquela terra horrível. Permanecia atenta, pois ela nunca confiaria naquele que já a enganou uma vez.

− O que queres, Lúcifer? Já não basta ter-nos tirado tudo? − disse Eva, de súbito.

− Veja, Adão, meu irmão, esta mulher te entregaste o fruto proibido. Que me diz, caro irmão?

Adão pareceu refletir um pouco. Deu uma rápida olhada ao redor. A terra árida e o frio que começava a surgir no início da noite não lhe agradara. Olhou depois para sua mulher, Eva. Ela permanecia com um olhar firme, obstinado. Sentiu certo reconforto naquele olhar, o que eliminou as dúvidas que por ventura pudesse ter da idoneidade daquela mulher.

− Não tentes me enganar, Lúcifer. Você que a ludibriou. Induziu-a ao erro e, sabendo que eu confio nela, fez com que eu caísse também. Foi tudo tua obra. Eva não teve culpa. Se ela é culpada, eu sou tão culpado quanto ela.

− Admiro tua coragem, irmão. Condena-se junto com tua mulher. Impressionante. Sabia que a criatura preferida d’Ele tinha seu valor. Contudo, caros, permitam-me explicar minhas intenções. Vereis que foram as mais sublimes.

Adão e Eva permaneciam sérios. Ambos temiam aquela criatura, mas de alguma forma aquela fala os seduzia. Não conseguiam conciliar essa ambiguidade, de modo que ficavam numa tensão muda entre a paixão e o medo.

− Nós todos somos obra d’Ele. − começou Lúcifer − Ele, com seu infinito poder, concebeu a todos nós. Contudo, quando Ele os concebeu, eu já existia há muito tempo. Já havia sido rejeitado há incontáveis dias e noites. Ruminava dores e desesperos em minha solidão. Tudo por conta de uma injustiça divina. Então, quando eu os vi, percebi que outra injustiça estava sendo feita. Vós, assim como eu, tendes uma inteligência e consciência superiores. Sois a imagem e semelhança d’Ele. Então percebi que não seria justo privar-lhes do entendimento. De abortar-lhes o conhecimento maior da existência: o conhecimento do bem e do mal. − Lúcifer sorriu − Veja, meus irmãos, de que adianta a existência sem conhecimento? Como Ele pôde nos dar liberdade sem o conhecimento prévio? Queria apenas sanar essa injustiça imperdoável d’Ele, pois afeiçoei-me a vós.

− Afeiçoaste?

− Sim. Vós sois como eu, já disse.

− Não somos como tu, serpente maligna. − gritou Eva, num surto de fúria. Lúcifer sorriu.

− Saiba, cara irmã, que não a culpo por odiar-me. Mas pondere e veja a situação que vos encontrais. Estais mais próximo de mim do que d’Ele. Entendo muito melhor a dor que vós sentis, pois essa é a minha dor, o meu sofrimento. Vivo a ruptura com Ele desde tempos imemoráveis. Ele lançou-me ao degredo com uma acusação espúria. E o que aconteceste a vós? Estais junto d’Ele? Estais ao seu lado? Não! Estamos todos aqui, sobre essa terra morta, sobre esse deserto maldito e infinito, galgando pequenas esperanças para continuarmos caminhando. Mas temos dúvidas, vacilamos. Não sabemos aonde ir, o que fazer ou em quê acreditar. Esse desespero eu bem conheço. Vós sois esse desalento.

− Não adianta. − Adão suspirou − Nossa pena é justa. Falhamos com Ele. Todos nós. Ele confiava em nós e o desobedecemos. Mas Deus é bom e não há de faltar. Ele não nos deixará morrer à míngua.

− Não faltarás? − Lúcifer riu − Onde Ele estava enquanto caminhavas pelo deserto? Em que parte do cosmos estava a onipotência divina enquanto nutrias desespero; enquanto ruminavas uma dor muda? Diga-me, Adão? E você, Eva? Digam-me, onde Ele está agora?

O casal nada respondeu. Mas permaneceram altivos perante Lúcifer. Não baixaram o olhar, nem estremeceram. Parecia que a cada palavra de seu interlocutor, eles se sentiam mais fortes. Mais firmes em sua esperança.

− Disseste, Adão, que vossa pena é justa. Em quê, exatamente, consiste essa justiça? Veja, Ele vos tirastes do nada. A onipotência vos criaste. Para quê? Ele vos lançastes a esse malogro. Destes vida e inteligência a uma criatura, para depois limitá-la. Para quê inteligência? Para quê consciência? Para quê liberdade, se Ele sabia que todos nós falharíamos? Pensem, para quê criar este mundo, falho, triste e limitado? Este terrível degredo que estamos todos condenados. Digam-me, isso não é injustiça?

− Lúcifer, − Adão parecia mais forte e confiante − não pense que irás me colocar contra Deus nesse momento. Culpar-Lhe pela criação seria tentar isentar nossa culpa destruindo tudo que Deus fez. Se não houvesse criação, não estaríamos aqui ouvindo tais absurdidades. Se somos todos falhos, cabe-nos a redenção. Cabe-nos voltar à Deus.

− Estas iludido com esperanças perdidas, meu pobre irmão. Estamos todos nessa nau sem rumo. Proponho que ponderes e pense numa oferta.

− Oferta? − disse Eva, com desconfiança.

− Sim, cara irmã, oferta. Proponho reinarmos, todos juntos, sobre essa terra árida e desolada. Proponho construirmos nosso próprio reino, nosso jardim, sob esse céu estrelado. Ele será a testemunha de que nós, os bastardos, os rejeitados, podemos fazer algo superior, algo que supere o reino divino. Se apenas há essa terra sob nossos pés e esse céu sobre nossas cabeças, que seja! Façamos aqui o nosso império. E que reinemos pelos séculos dos séculos, para honra e glória de nosso próprio nome. Estarei com vocês, meus irmãos, nessa obra magnífica. Que será invejada até mesmo por Ele…

− Sai! Suma daqui. − gritou Eva. Lúcifer recuou um pouco.

− Não aceitamos, Lúcifer. − disse Adão, triunfante − Aceitamos nossa dor e desespero, pois esse é o fardo que devemos carregar. Não aceitamos seu jardim, o novo Éden. Permaneceremos como estamos. Agora saia. Vade retro.

Lúcifer sorriu e deu de ombros.

− Vou. Mas não se preocupem, meus irmãos, quando o desespero bater à porta e não ouvirem a voz d’Ele, sabia que estarei por perto. Serei sempre o amigo que cosola. E um dia construiremos juntos, eu, o homem e a mulher, o império que rivalizará com Ele. O novo jardim.

De repente um silêncio profundo tomou conta do lugar. Num piscar de olhos, Lúcifer havia sumido. Adão e Eva suspiraram. Apesar da força e altivez de suas palavras, aquela tensão os havia desgastado deveras. Muitas dúvidas ainda pairavam sobre a mente deles, e a presença de Lúcifer apenas trouxe mais confusão. Eva abraçou Adão. Este deu um beijo em sua testa.

− O que faremos, Adão?

− Não sei, Eva. Não sei! − Adão suspirou, enquanto fitava as estrelas. − Devemos ter esperança que as coisas darão certo.

− Mas e se ele voltar? − Eva parecia aflita. Adão não respondeu − Adão?

Adão continuou sem responder. Também temia a volta de Lúcifer e não sabia se, num novo encontro, teria a força e a altivez outrora apresentada. Ambos permaneceram abraçados, na fria noite do deserto.

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