As Dores

Olhou novamente para o relógio e percebeu que já era tarde. Quase hora de preparar o jantar, hora de perguntar o que ela ia querer. Talvez um filé com batatas, já que era sábado. A cerveja estava lá da semana passada, quando foram na casa de um amigo pra comemorar o aniversário de outro. Filé com batata… Pensou na simplicidade do prato e nas vezes em que tinha reclamado em prepará-lo. Admitia, para si mesmo, que fora desnecessariamente rude em alguns momentos.

Ainda que fizessem uma dieta relativamente regrada, os sábados eram os momentos em que liberavam os eus glutões, em que tomavam café da manhã em uma padaria próxima e faziam as outras refeições fora. Era o dia em que marcavam os eventos sociais, para não quebrar a promessa de vida saudável que haviam feito assim que se mudaram.

Ele, porém, estava sendo observado. Recostada no batente da porta, parecia não querer dizer nada e só começou a falar pois somente palavras expressariam o que precisava ser feito no momento.

 Que horas você vem amanhã? — ela olhava diretamente pra ele, enquanto falava.

— Não sei, a hora que for melhor pra você.

— Só posso pela manhã.

— Venho a tarde — ele respondeu, levantando-se da cama, em direção do guarda-roupas – Vou arrumar tudo.

Enquanto dobrava as roupas calculou que já tinham se passado cinco horas desde a decisão que tomaram. Cinco horas. Uma para cada ano que viveram sob o mesmo teto. “Poético”, pensou.

Tirou as camisas dos cabides, dobrou as cinco primeiras de maneira impecável e as outras quinze de qualquer forma. Foi organizando as roupas de baixo e as calças, mais como um esforço para que tudo coubesse na mala em uma viagem só do que num afã organizacional que não era do seu feitio. Não ouvia barulho vindo dos outros cômodos. Era apenas silêncio. Preferia que estivesse tocando uma das músicas que ele detestava do que o silêncio, que é sempre mais duro pois deixa as pessoas abandonadas consigo mesmas.

Quando terminou, foi até a sala e debateu brevemente sobre a divisão das coisas e das contas. Não queria dividir nem pensar nisso. Queria ir embora.

— Então fica assim, tem certeza? — ela disse enquanto se dirigia para a sacada, de onde via-se o dia irritantemente azul.

— Por mim, sim – ele respondeu, com a firmeza que não tinha.

Ela apenas assentiu e olhou para a mala, que fazia companhia ao agora ex-companheiro.

— Já vai?

— Não tenho mais o que fazer aqui.

Saiu, sem se despedir, o que depois achou desnecessário e mais doloroso do que apenas dizer as palavras certas.


Em outro dia foi à imobiliária pois, já não bastasse a dor intrínseca ao fato, ainda havia todo o descontentamento de mexer continuamente com a história. Foi discreto nas redes sociais, para não alarmar muitas pessoas. Enquanto esperava na fila teve o mórbido desejo de que tudo fosse extraordinariamente rápido. Que a senhorinha que olhava no computador apenas dissesse “assine aqui, pague aqui e devolva a chave”. Simples e indolor. Seria um alívio tremendo e uma forma de seguir adiante de maneira rápida. Quando foi chamado, sentou-se na cadeira azul de encosto torto e tudo que conseguia ouvir era dor.

— O senhor já fez o aviso? Quando vai sair? Quando é o próximo condomínio que… — abstraiu. Por um momento não estava mais na sala com cores duvidosas da imobiliária que diziam estar falindo. Concordava mecanicamente com o que lhe era dito. Estava em outro lugar, outra situação talvez. Não se atentou aos valores que a senhorinha escrevia no papel levemente amassado.

Lembrou-se do aplicativo com o qual se conheceram. Um desses, que antes era chamado de “aplicativo de namoro” mas que foi sendo incorporado eficazmente na cultura de se conhecer novas pessoas. Se antes era maníacos pervertidos, hoje era a tia do pão e o porteiro do prédio, além da socialite e do rato de academia. Ele se sentia bem no aplicativo, conseguia flutuar entre as pretendentes sem dificuldade. Isso porque, ali, ele poderia conversar livremente, algumas vezes com a direta intenção de algo pra vida toda, outras com a certeza que seriam apenas alguns chopes e nada mais. Voltou, inesperadamente, quando a senhorinha já fazia cara feia com a sua falta de atenção.


Sentou-se na cama, que ficava bem do lado da janela. De lá, via-se a portaria do prédio, a cidade e alguns prédios. Com o celular na mão, recebeu a notificação de que o aplicativo estava instalado. Pensou se valeria a pena tentar de novo. “Tanta dor”, pensou. “Tanta dor e tanta dor tão constante…”. Seria melhor que tivesse havido um rompante ou uma traição. Assim era constante e desagradável, como um alfinete insistente na camisa. Viu o céu, novamente azul. E viu quem chegava na portaria. Desbloqueou o celular, escreveu seu nome e voltou a busca.

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