Episódio X: Mnêmico

Stevenson caminhava pelas ruas vazias durante a madrugada, desde a estação do metrô até seu prédio.

Sem qualquer identidade para comprar novas, não tinha trocado de roupas ainda, estava com a mesma camiseta e calças estranhas e chamuscadas. Lhe rendeu olhares estranhos por todo o lugares que andava.

Depois de caminhar mais seis quadras, resolveu mudar de trajeto. Logo estava na frente de sua universidade, onde procurava um lugar pra se sentar.

As memórias em sua mente eram somente de morte e sangue. Então pensou em primeiro passar num lugar mais familiar que seu apartamento recém-adquirido e ainda não decorado. Mesmo que naquele momento fazia dois anos de sua compra.

Ficou um bom tempo sentado numa das muretas da praça atrás da universidade. Pensando sobre todas as coisas, e ao mesmo tempo sobre nada, se pegando admirando o luar e a brisa da noite.

Em seguida, foi a uma máquina poucas quadras distante para tirar outro OneCard, e comprar outro celular.

Completada a operação, seu novo aparelho não parava de apitar, com inúmeras chamadas não atendidas e mensagens não lidas.

Voltando a andar, agora procurando um lugar onde comprar algo pra comer, imaginando que não ia encontrar nada em sua geladeira que ainda fosse consumível, a última das mensagens recebidas lhe chamou a atenção. Era uma transferência bancária, no valor de cem milhões de dólares. Como remetente somente a letra W. Na descrição: “Você sobreviveu. Você merece”.

Quando chegou a sua casa, já amanhecendo, tomou um banho e tentou dormir. Estirado na cama, sua mente estava bem acordada. Eram sete horas quando resolveu não fazer somente uma ligação e ver sua irmã e avó pessoalmente.


Ao sair do carro parado ao lado do parque em que costumavam ir nos domingos, o nascer do sol se fazia belo por entre os prédios ao longe. Ele reconhecia Stephanie e sua avó, sentadas num dos bancos no centro do lugar.

Caminhando até elas, não demorou até ser reconhecido por sua irmã, que logo que o viu passou a corre até a ele e para abraçá-lo.

Um abraço que dizia toda a falta que fizeram um ao outros durante um ano.

— Onde cê tava?

— Trabalhando.

— Que trabalho chato, Stiv.

— Eu que o diga…

Depois que se levantou do abraço viu sua avó se aproximando, também para abraçá-lo. Mas diferente de Stephanie, estava triste e chorosa ao vê-lo. O abraçou de uma maneira forçada e desajeitada:

— Oh meu filho, por onde você esteve? Quase matou a gente preocupação. Não faz mais isto não, rapaz.

— Ele tava trabalhando, vó! — Stephanie altiva e contente.

Ela o olhou espantada.

— Isso não é trabalho, meu filho. Que aconteceu?

— Aconteceu muita coisa. Uma atrás da outra. Não tive como avisar. Muitos imprevistos.

— Ah, meu filho. A gente ficou preocupada. Deu uma notícia que várias pessoas estavam sumindo. E você não tava mais as caras.

— Teve uma notícia assim?

— Sim, teve. Você não lembra?

— Não… E depois? O que disseram?

— Depois? Ora, não disseram mais nada.

— Entendo — depois diz a Stephanie, que não prestava atenção na conversa. — Que tal um sorvete, hã?

— Não.

— Não? Não quer um sorvete?

— Não, quero não — ainda distraída.

— Ah tá, bom então.

Então ele e sua avó se afastaram para conversar mais seriamente.

— Steven, não minta pra mim. Eu sei que você não estava trabalhando. Sabe-se lá o que estava fazendo, mais não era do seu trabalho.

— Por que diz isto? — sentando-se no mesmo banco de antes.

— Seu departamento de polícia ligou algumas vezes lá em casa, procurando você.

— Claro, não me lembrei disso.

— Você perdeu seu emprego, Steven. E não está preocupado?

— Nem um pouco…

— Já sei!! — chega Stephanie num pulo. — Vamos brincar de Warld! — depois imitando uma metralhadora com as mãos e fazendo tiros com a boca.

Espantado Steven procura respostas com sua avó com um olhar.

— Ah meu filho, isso foi sua praga! Em todo lugar só se ouvia falar daquilo. Esta menina não desgrudava da TV.

— TV?

— Sim, na TV! A qualquer hora do dia. Depois que a censura acabou a TV virou uma verdadeira merda.

— Hihihihihi, a vó falou boca suja.

— Falei mesmo. E você pare com isto — desfazendo sua arma imaginaria.

— Ahhh… Vêeeeeemm — puxando Steven pela mão.

— Já estou indo — se dirige a sua avó, tirando o celular do bolso.

— Credo, que celularzinho ultrapassado, hein.

— Eu o comprei há 5 horas atrás — contrariado.

— Não me diga que comprou numa daquelas máquinas mequetrefes no meio da rua?

— É provisório… Estou dando um dinheiro pra ajudar vocês duas.

— Não precisa disso, Steven — diz no mesmo momento que seu celular vibra.

— Vêemmm logo — o puxando ainda mais forte pela mão. — O meu preferido era o cara do fogo. E o seu, Stiv?

Quando sua avó viu o valor ficou boquiaberta: cem mil dólares.

Enquanto se deixa ser levado por Stephanie, ele faz um adendo a ela:

— Eu bloqueie o valor pra cassinos, viu.

— Merda — disse certificando-se que desta vez ninguém ouviria.


Saindo da faculdade, no meio de uma noite de ventania, Stevenson para para apreciar a fachada do prédio, no mesmo lugar em que sentou três anos atrás, e em que decidiu retomar os estudos.

A mensagem que tirava do seu bolso desta vez não era de uma grandiosa quantia em dinheiro na sua conta. Era melhor que isto. Depois de cinco anos, 2055, seu OneCard passava a mostrar o status de Formado.

Em alguns dias começariam a chegar as ofertas de emprego.

TRÊS ANOS ANTES

OptSarter acabava de ligar, o telefone chamou apenas uma vez, atenderam. Ele disse:

— Senhor, tivemos um problema. Dois sobreviveram.

— Eu sei, Mister Sarter, não se preocupe. Não eram todos mesmo — pausa. — Esses dois não causarão problemas.

— Claro senhor, tem razão.

— E os lucros?

— Quinhentos por cento. Deverá aumentar muito com vendas posteriores.

— Eu sei. Bom trabalho, Sarter. É só.

— Obrigado, senhor.

Desligam.

Roll Credits

01 02
Hurra – Wir leben noch e Addictive traduzidos em Trilha sonora.
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