Episódio X: O Início

— Mas você vai voltar? — emburrada.

— Claro que vou — convincente.

— Mas quando? — desconfiada.

— Sempre que você precisar, tá bom? — abrindo um sorriso confiante. — Agora me dá um abraço, hum? — estendendo os braços para ela. Ela se afasta e se aborrece de ver.

— Não! — decidida.

— Por que não, Stéph? — estranhando.

— Porque quando a mamãe me pediu um abraço, ela nunca mais volto — com a cara fechada.

Steven fica confuso e sem fala por um instante.

— Stiv?

— Sim? — despertando.

— Você vai embora que nem a mamãe? — começando um choro.

— Claro que não! — a abraça a força, ela não tem forças para esquivar. — Você vai ver. Vou estar sempre com você. Sempre que precisar.

Ela se entrega ao abraço com os olhos lacrimejando, segurando o choro, o abraça fortemente, ele retribui. Longos minutos, que seriam lembrados como um instante por muitos anos.


Quando Steven entra no corredor, Harry também está saindo do seu quarto, ele o olha contrariado, sério, não diz nada, parado vendo Steven chegar à sala, onde sua avó está deitada no sofá, com os pés e cabeça nos encostos, olhando o teto, com as mãos cruzadas na altura da cintura, trêmulas pela doença. Steven se aproxima devagar e respeito, agacha-se ao lado dela, põe as mãos sobre as dela, só então ela percebe sua presença.

— Estou indo, vó.

Ela o olha compadecida, tempo suficiente para ouvir a frase três vezes, e sem dizer nada volta a olhar o teto, mas segura as mãos de Steven. E as aperta, mais e mais, com as poucas forças que um corpo de 88 anos mal vividos ainda podiam ter. E só depois do dobro de tempo, diz:

— Parece que o teto tem uma infiltração no teto, vê? Tenho que falar para Elisa que o teto tem uma infiltração.

— Vó, …

— Meu filho — ela o interrompe, — não estou tão louca como pensa. Eu sinto que meu fim está próximo… Não está certo uma filha morrer antes da mãe. Não está certo… Eu devo ir logo, eu sinto — longa pausa. — Não tenho mais utilidade neste mundo, há muitos anos não tenho. Não tenho mais o que fazer aqui… ainda mais sem minha única filha… A única minha de verdade…

— Você tem a Stephanie.

— Quem?

Depois do espanto, Steven abre a boca para responder, mas é interrompido de novo.

— Ah! Não… eu não presto mais pra isso… Não presto mais para nada — curta pausa. — Sua tia Luisa veio aqui ontem, ficou quase o dia todo — outra pausa. — Depois que sua mãe foi embora ela está quase sempre aqui. O marido de Elisa disse que ela pode morar aqui se quiser — nova pausa. — Não acho bom ela solteira do jeito que é, vindo morar com um homem casado…

— Acredite: tia Luisa nunca se interessaria pelo Harry… — com uma entonação sarcástica.

— Hunf! Sua tia Luisa é terrível, você sabe — o olhando nos olhos periodicamente. — Espero que ela respeite sua mãe. — novo silêncio. — Sonho com sua mãe todas as noites… Todas elas… desde que ela morreu.

Steven engole seco.

— Ela sempre diz coisas confusas, sobre todos, até sobre você… Fico com a cabeça zonza. Depois acordo assustada, e continuo acordada, com medo de dormir de novo, porque ela sempre volta.

Steven continua terno.

— Quando ela aparece dizendo aquelas coisas, e eu não consigo acordar, me assusta ainda mais, porque eu já estou acordada — ela olha fundo nos olhos de Steven. — Ela está escapando dos sonhos.

— Já não está bom, Giovanna?

Os dois olham para, e vêem Harry de pé na entrada do corredor.

— O que você quer agora, Harry? — diz ela.

— Nada, só estou cansado de ouvir essas loucuras.

— Então não as ouça, Harry. Saia, vá caminhar, pule da janela — a indicando com o olhar, — faça algo que preste. Pensando bem, é uma ótima idéia. Vamos, pule da janela, você vale mais morto do que vivo mesmo.

Harry se enfurece, dá um passo agressivo pra frente, então Steven se levanta, com um ar ameaçador. Harry finge que não o vê, e se dirige novamente a Giovanna:

— Ao menos eu valho alguma coisa, sua velha inútil…

E parte à porta, enquanto Giovanna diz serenamente a ele:

— Valor material até esterco tem. Já caráter…

E antes de bater a porta, lança um olhar intimidador a ela.

Giovanna se levanta, para sentar no sofá. Steven também o faz, dizendo:

— Ele piorando tanto assim?

— Piorou, depois do acidente, piorou muito. Fica em casa o dia todo. Só quando sua tia está aqui ele sai, e demora a voltar… Não está certo.

— E hoje quando ele voltar? Vai ficar bem?

— Não se preocupe, meu filho, ele não fará nada. Terá até se esquecido… Mas se ele não se esquecer, eu me esqueço — irônica.

Stephanie entra na sala, com os olhos vermelhos, estranhando a porta e os dois sentados.

— Eu achei que fosse você que saiu batendo a porta, Stiv… Brigou com o papai?

— Não, não fui eu.

— Vem cá, filha — abrindo os braços e oferecendo colo.

— Foi você, vovó?

— Não, foi ele mesmo.

— Como assim, vó?

— Bem, você sabe com seu pai é.

— Ele é blavo.o, né?

Steven se levanta, passa uma alça de sua mochila pelo ombro.

— Agora você vai embora mesmo? — Stephanie emburrada.

— Sim — num suspiro. — Mas não se esqueça do que eu disse.

— Tá bom…

— Só vai levar isso? — diz a avó.

— Sim, já peguei tudo que queria.

— Mas não é quase nada, vai deixar tudo aquilo aqui?

— Sim, pode dar tudo, vender não sei…

— Tudo bem, se quer assim.

Steven beija a face enrugada da avó, roçando alguns fios de cabelos estranhamente brancos, com tons ruivos, de que já foram; beija a testa de Stephanie, com a mão na sua bochecha lisa e macia, depois dança com a mão nos cabelos lisos, negros até o ombro.

Vai a saída, passa o batente, e com a mão na maçaneta, vê as duas, como um retrato: sua irmã no colo de sua avó, sentadas no tão familiar sofá branco, próximo a janela com pouco de céu e tantos prédios amontoados, a mesinha de centro, de vidro, a TV na parede, o tapete, as cortinhas, tudo detrás do balcão da cozinha. Tudo escolhido e ajeitado pela mãe.

— Tchau…

Um retrato que vai desaparecendo com o fechar da porta 512.

No corredor ele olha a câmera apontada para ele. Do mesmo jeito que ela sempre o olhava ele fazia o mesmo, mesmo não querendo.

Esperando o elevador, bem embaixo dela, um zunido chama sua atenção. Um som agudo que aumenta com o tempo, como uma garrafa enchendo. Steven olha estranhando a câmera, e constata que o som vem dela. Ela que estoura logo depois, para sua surpresa, o elevador se abre.


No pequeno hall de entrada, Steven percebe a movimentação na sala de monitoramento. De porta aberta, dá para ver todos os monitores fora do ar, menos os de andares mais aos, sétimo para cima.

— O que aconteceu?

— Eu não sei! De repente pluft. E pluft, pluft — indicando a subida de andares, — e pluft.

— Você é um idiota, Loide, um idiota…

— Mas não fui eu!

Na porta, o joker marrom espera Stevenson.

Steven o vê e desanima, mais ainda.

— Você de novo? O que foi agora?

Ele passa a mão pelo ombro de Steven.

— Nada… só revendo um amigo.

— Pensei que não tivesse amigos…

— Exatamente — debochando.

— Vejo que aumentou a freqüência do seu aparelho.

— Você viu? Muito melhor agora. Se não me deixassem tão doidão… e a dor de cabeça…

— É. Estou sentindo — olha desaprovando a mão no seu ombro. — O que querem agora? Libertei Tom como queriam.

O joker ri novamente.

— Não trabalho mais para a sociedade.

Steven se surpreende.

— Você não fica trabalhando para uma mesma pessoa por muito tempo mesmo.

— Sim, mas quando eu estava com Tom, estava com a sociedade indiretamente.

— Então, o que quer?

— Nada… Na verdade… Onde está indo agora?

— Universidade.

— Exatamente… você pode me dar uma carona, então.

— Carona? Eu vou de metrô! E desde quando você estuda? Ainda mais lá.

— Metrô? Hum. Não tem problema, eu até pago.

Steven estranha, e indaga só com o olhar.

— Está bem, tenho um trabalho lá. Preciso de alguém para entrar.

— … Se você fizer merda, como provavelmente fará, eu me ferro, você bem sabe.

— Eu sei. Mas não tem que se preocupar. É rápido. Pá-pum. Pluft-pluft — imitando o segurança.

— Quem disse que eu confio em você?

— Ohn… não fira meus sentimentos para contigo.

— Cale a boca…

— Me ajude. E será a última vez que você vai me ver.

— O que você vai fazer?

— Alguma coisa com os arquivos de Tom.

— Pro Tom?

— Não é pra… pro…

— Você não disse não estava mais trabalhando pra sociedade?

— E não estou… bem… É o último. Desde desse já acaba. É que eu tento sair, mas eles me puxam de volta — imitando Godfather.

— Está bem.

— Sério?

— Sim, mas você ficará me devendo. E quando eu precisar, aí sim, será a última vez que eu verei você.

— Ah tá…

— E que está seja a penúltima!

— Tá bom…


Na portaria da universidade, Steven apresenta o acompanhante, que entra sem crachá, não feito por um problema no computador, o que até lhe rendeu desculpas.

— Adeus, amigo.

O joker logo se afasta para procurar o database da instituição. Não era do feitio de um joker marrom cumprir um acordo em que ele deve um favor, mas podia ser diferente.


Na aula de geopolítica mundial, mesmo entre os cerca de 330 alunos no grande auditório, Steven conseguia achar Martin no meio dele. Sempre conseguia.

Os lisos cabelos cobres, e os intensos olhos vermelhos escuros. Sempre com roupas caras e quatro grandes seguranças mal encarados. Como se ele precisasse. Soube-se por todos que certa vez dois ou três alunos, ficaram queimados ao contradizer-lo. Literalmente queimados.

As queimaduras tinham a forma de dedos deslizando, no braço de um deles. E nem ele, e nem ninguém sabia explicar como surgiram. Somente Martin poderia dizer, mas a essa altura, ninguém queria perguntar.


Abre a porta, a tranca, joga sua mochila em qualquer lugar, nem acende as luzes, vai a cozinha, pega um copo baixo e se serve. Volta à sala, passando pelo balcão que os divide. A sala é ampla e os poucos móveis são bem dispostos. A janela excluir toda uma parede, e mesmo com os prédios a frente, vê um pouco do céu, e a luz da rua ilumina bem o lugar.

Steven se senta numa grande poltrona confortável, com o copo de whisky. Olha pela janela e vê os fogos de artifício começando a queimar o céu. Olha para um relógio digital em cima de uma pequena mesa, que vira para a meia-noite do dia um de janeiro de 2051.

LONGE DALI

Numa aparente transmissão de televisão:

Um homem descarrega toda a munição de sua submetralhadora, de canos giratórios, no peito de um sujeito encurralado. Parecem estar numa floresta. As faíscas, os estilhaços, a fumaça, nada deixam ver, acompanhado do som ensurdecedor dos disparos.

Com o fim das inúmeras balas, os dois abrem os olhos e estão como antes. O alvejado bate no peito, mostra o som metálico de sua armadura e diz:

— Melhor na próxima.

Ele levanta o braço e atira com uma Magnun na cabeça do outro, que voa, caindo de costas.

Então um troféu, girando, em forma de W, de cor prata brilhosa, enche a tela; e o narrador de voz pomposa anuncia:

— Coming soon.

Separados como por um mudar de canal, um noticiário, onde a ancora anuncia:

— No próximo mês serão desligadas as BTPs; mais de quinhentos milhões de pessoas na África, Oriente Médio, Extremo Oriente e em vários pontos isolados, voltarão à vida… — a transmissão perde sintonia — O acordo estabelecido há mais de vinte anos, será respeitado… — mesclando com o noticiário, milhares de pessoas dispostas em fila… — …antigas discussões, que nunca cessaram… — …todos vestem uniformes pretos e ouvem um orador, na frente da multidão, num ponto mais alto… — Hoje os representantes dos paises do K8/10 e o GTA se reúnem, para… — …o orador fala: “…chegou a hora que mais aguardamos durante todos esses anos; teremos apartir de agora mais que uma ideologia; teremos uma missão.” — O noticiário continua.

Vozes que não vêm da TV:

— Senhor, estamos perdendo o foco; captando outra coisa.

— Desliguem, agora, rápido! Os drexaustores estão queimando!

A TV desliga.

Roll Credits

01
Nothing is Real traduzido em Trilha sonora.
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