Universidade e desconstruçãopor

Via de regra, o que se passa com a universidade brasileira hoje é algo que deveria causar perplexidade. A formação universitária consiste, no melhor dos casos, em formação técnica. Não há nada de errado com a formação técnica em si − muito útil socialmente − mas esse não deveria ser o papel da universidade; do ensino superior. O estudante universitário, além de aprender a técnica de sua área (engenharia, medicina, física, direito) deveria conhecer uma série de outros assuntos que abarcariam e transcenderiam a mera técnica. Por exemplo, um arquiteto não deveria apenas conhecer as técnicas disponíveis de sua profissão, mas sim conhecer profundamente a cultura do país onde ele irá atuar, as mudanças artístico-culturais que influenciaram os estilos arquitetônicos, ter noções de harmonia (se o estilo empregado em determinado projeto combina com a vizinhança), ou se, por um acaso, houver desarmonia, que o arquiteto esteja plenamente consciente do porquê daquele projeto destoar dos demais, etc. Infelizmente essa abrangência de conhecimento na universidade não foi legada nem para os estudos especíalizados. Quando um sujeito vai fazer um mestrado ou doutorado, ele recorta determinado tema para fazer um estudo específico (por vezes tão específico, que apenas um círculo de iniciados consegue compreender). Contudo, ao concluir sua dissertação ou tese, o sujeito apenas se fechará mais ainda em sua especialidade. Em filosofia é comum vermos especialistas em um ou dois filósofos, ou em temas específicos como moral, metafísica, epistemologia e por ai vai.

Esse não é um manifesto anti-intelectualista contra as especializações, mas sim com o modo como a universidade se organizou neste país (a única que pude observar in loco). É muito pouco para a universidade formar, no melhor dos casos, técnicos ou técnicos especializados. Quando saímos do ensino básico, com uma dita “formação média”, esperamos encontrar na universidade o maravilhoso “ensino superior”, e não um ensino técnico. É muita energia, tempo e dinheiro despendido em algo que deveria ampliar enormemente a consciência das pessoas, e não fechá-los em meia dúzia de ideias ou em alguns preceitos tecnicistas. Acreditar que estamos nos tornando um país melhor por conta do número de pessoas inscritas em universidades ou pela extensão dos diplomados é uma ilusão terrível. É acreditar que a quantidade superará a qualidade. Além disso, acreditar que estamos melhorando por conta dos diplomas impressos pelas universidades me faz lembrar do começo do livro “O Triste Fim de Policarpo Quaresma” onde o desafeto do velho major, o diplomado doutor Segadas, não podia admitir que Policarpo tivesse livros: “Se não é formado, para quê? Pedantismo!”. Triste fim, Policarpo, triste fim!

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