A reificação do outropor

Temos uma espécie de vício estrutural, que nenhum determinismo biológico ou social consegue explicar satisfatoriamente. Somos viciados em gente. Precisamos, por vezes desesperadamente, de seres humanos − sejam eles imaginários ou reais. − Não conseguimos viver sozinhos por muito tempo. A solidão nos mata ou nos transporta para a fronteira perigosa entre a loucura e a alucinação. Não é a toa que percebemos que os maiores místicos e profetas eram também seres extremamente solitários.

Por que tamanha necessidade? Para quê tanto esforço? Não sinto nenhum apreço em responder essa pergunta, pois não me sinto confortável em questões irrespondíveis. Deixo que nossas maravilhosas teorias de tudo (um determinismo biológico ou social qualquer) venha nos brindar com suas luzes de misticismo e intolerância. O que chama minha atenção é essa mescla que encontramos hoje entre a solidão e o contato, alucinação e realidade.

Por não podermos escapar de nossas próprias sensações, a não ser por um esforço imaginativo hercúleo, tendemos a tratar o outro como objeto. Quando Descartes olhava pela sua janela e pensava que por trás dos chapéus e casacos poderiam se esconder bonecos de mola, vemos a reificação do outro já na fundação da filosofia moderna. Essa tendência talvez seja a marca do nosso subjetivismo, de não enxergar nada que esteja além das nossas sensações. Mas se tentamos escapar do subjetivismo, tratando nosso eu, nosso ser, como um dentre outros seres da natureza, não estaríamos ainda na mesma tendência de reificação? Ora, se os outros são objetos para nós, eu sou objeto para os outros. Na tese subjetivista, eu, que ajo, que penso, que sinto, não sou nada além de um objeto de pensamento do outro. Mas, seguindo por uma tese objetivista ou realista, todos somos reais e estamos no mesmo mundo; somos todos objetos do mesmo mundo.

O subjetivismo falha não em reificar o outro, mas em pensar que esse objeto seja apenas objeto de pensamento. Quando nos tornamos objeto de pensamento do outro, uma série de modificações ocorre. Essa nossa imagem formada na mente de outra pessoa entra em relação com as crenças, esperanças e desejos que tal ser tem sobre nós e sobre o mundo. O objeto se deforma, desviando-se em mais ou em menos daquele objeto que foi extraído da realidade. Podemos virar uma coisa completamente diferente na mente do outro.

O exemplo mais simples e claro disso, que deixa desastrosa muitas relações humanas, é o amor. Quando tratamos o outro como objeto de desejo (de satisfação sexual, pessoal, ou seja lá o que for) vemos, gradativamente, o objeto que existe apenas em nossa cabeça ir se arruinando ao se confrontar com as ações reais dos objetos reais. As crenças, desejos e esperanças que criamos em torno de um objeto (falseando-o, por fim), é frustrada quando não correspondida com a expectativa. Quando tal golpe é desferido, em geral as pessoas rompem relações imediatamente. Muito mais simples iniciar o processo com outro objeto. Contudo, se persistimos, lidando com a frustração, teremos que ir, gradativamente, adequando o objeto mental ao objeto real. Contudo, muitas vezes isso não funciona, pois com o passar do tempo novas crenças e novos desejos nos assaltam, fazendo com que criemos novas expectativas, esperanças etc.

A reificação do outro, nessas condições, se torna trágica. O acesso ao mundo real, mediado por esse tipo de subjetivismo, é algo que nos lança cada vez mais para dentro de nós mesmos. Não estamos nos relacionando com a realidade, mas sim com as nossas crenças, os nossos desejos, enfim, com a “nossa realidade”. Por outro lado, como podemos nos relacionar com a realidade sem nossas crenças e desejos interferindo constantemente? Não há um crivo isento para percebermos a realidade além das nossas próprias vias perceptivas. Isso é fonte de tanto sofrimento, que vimos surgir, nos últimos séculos, revoltas absurdas, como a revolta positivista ou relativista (que, na realidade, apenas atualizam antigas escolas pré-socráticas). Não parece haver uma solução razoável para esse problema. Então tanto o subjetivismo como o realismo parecem estar certos em algum aspecto.

O fato mais surpreendente é que ainda existem pessoas que protestam contra a coisificação do outro, dizendo que essa é a fonte máxima de nossa solidão. Isso apenas denota uma maneira muito superficial de encarar o problema. Sem a resolução da questão da relação entre eu-mundo, nós ainda seremos reificados e reificaremos o outro. E mesmo supondo que seja resolvido, não há garantias que a resolução abolirá de vez a reificação. Pois é, bem vindo ao mundo… esse vale de lágrimas!

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