Isadorapor

Isadora era a principal estrela da peça. Com seus olhos verdes, sobrava no palco e distribuía sorrisos e alegria por onde passava. Isadora arrebatava corações nas suas interpretações de Shakespeare e deleitava a plateia quando fazia interpretações modernas.

— Não vou.

— Mas Isadora… — o diretor da peça não sabia mais o que fazer. Já tinha gritado, xingado e chorado mas a sua estrela não queria entrar em cena. Justo na peça no Municipal! — Tenha compaixão com as oitocentas pessoas aí fora, Isadora.

— E eles tem compaixão comigo?

— Não sei.

— Como assim “não sabe”? — ela levantou-se de sobressalto.

— Ué, não sabem. Eles não sabem dos seus problemas. Como vão ter compaixão?

— Mas, mas… E se soubessem teriam?

— Provavelmente alguns sim — respondeu ele enquanto comia um queijo da mesa de frios.

— Pois aí está, como vou ter compaixão com pessoas que possivelmente não teriam compaixão de mim se soubessem dos meus problemas?

O diretor revirou os olhos e pensou se aquela vaga de administrativo na empresa do sogro ainda estava disponível.

— Isa, seus fãs está aí, a mídia, família, todos! Vamos, vamos lá fazer essa peça acontecer!

— Não vou e é decisão final. Estou muito magoada. Esse protesto é uma luta de classes, é um acontecimento que ficará registrado na história desse teatro — uma lágrima quase caiu de seu olho esquerdo pois ela quase se emocionou de verdade.

— Eu nem sei do que você está falando.

— Não sabe? Não sabe? Você é o principal culpado de tudo! — apontou o dedo de maneira inquisitiva e depois reparou que a unha estava mal feita.

— Eu sinceramente não sei qual o motivo.

— Vou te dizer.

— Então diga.

— Vou te dizer e você vai tentar consertar mas eu não vou aceitar.

— Diz, o que é?

— O Júlio.

— O Júlio?

— É, o Júlio. O Júlio não está aqui.

— Você quer que eu traga o Júlio?

— Não, idiota, eu estou protestando pela não-presença do Júlio aqui. Eu nem sei quem vai ser o meu par.

O diretor não sabia o que dizer. Atônito, tomou dois goles de whisky na garrafa e sentou-se pesadamente na cadeira.

— Isa…

— Não me venha com suas desculpas.

— Isadora…

— Nem tente me ludibriar. Não aceito ninguém.

— Isadora, isso aqui é um monólogo. Só tem você na encenação. Mudamos a peça dois meses atrás.

Ela não respondeu.

— Eu te avisei que a sua viagem pra Paris não ia ser boa coisa, Isadora.

O público assistiu, incrédulo, a atuação de Isadora com um par que não existia nem respondia. Uns acharam que ela tinha enlouquecido, outros saíram no meio da peça por não entenderem o que se passava mas, no geral, o consenso foi que tudo tinha sido genial.

Isadora mudou-se pra Paris com Júlio e abriu uma boulangerie.

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