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I – As joias e o quadropor

Você já parou para pensar em um dia específico? Para Ainda o tempo não corre. Todos os dias são como fotografias, estáticos e repetitivos. Ela está em Amsterdã de dezembro de 1936. Encontra-se no quarto da pessoa que pretende salvar. É triste conhecer o final de todas as histórias. Agradece silenciosamente o fato de joias desconhecerem o futuro, pois se fosse diferente, aquele sono tranquilo jamais poderia acontecer. A criança dorme em paz.

— Acorde — sussurra Ainda.

A garota de pouco mais de sete anos esfrega os olhos. Senta-se.

— Quem é você?

Esta é uma pergunta difícil. Ela simplifica:

— Sou uma viajante do tempo.

Já um clichê? Que falta de imaginação!

— Acha mesmo que vou acreditar? — indaga-lhe a menina.

— Sei do seu futuro. Estou aqui por causa dele.

— Convença-me.

Ainda retira um pequeno livro de sua bolsa e entrega à criança. Há um tempo constrangedor até que algumas páginas sejam lidas.

— Estou convencida. Que podes fazer por mim? — os olhos da pequena brilham na tentativa de esconder as lágrimas.

— Eu vim salvá-la. Para todos além de nós tudo acontecerá como está registrado, mas você não estará lá. Sua consciência não passará deste ponto no qual nos encontramos. Daqui, sua vida reinicia para que viva feliz e salva em tempo e espaço seguros. É um segredo nosso.

 

Nas margens do rio Amazonas, Ainda se banha. Observa o som das folhas ao serem tocadas pelo vento antigo. O barulho das águas, dos pássaros. Há uma tristeza no ar, é fim de tarde. Agradece a si mesma por ter pego mais de um anel de vida. Ela está a algumas centenas de anos do “descobrimento da América”. Tem os cabelos castanhos preso no topo da cabeça. Quando soltos eles não passam do ombro e formam cachos. Sempre serão assim. Eternamente terá dezesseis anos, a mesma altura, o mesmo peso. A cortesã sabe que não deveria visitar o mundo das joias para benefício próprio, mas precisava de um banho revigorante. No Oito não há banhos.

É hora de se despir do anel.

Ela retorna ao Oito, gosta de imaginar que é manhã, embora sempre seja meio-dia. Em frente há uma mesa de madeira que precisa ser envernizada, cuja superfície está cheia de anéis dourados e prateados. Sobre eles há um homem. Um homem velho, miúdo e careca, de óculos com lentes grossas. Ao notá-la, ele ergue o rosto e retira os óculos. As chamas das velas que iluminam o local tremulam.

— Achou que eu não notaria?

Ainda coloca dois anéis em cima da mesa. Diz:

— Você sempre nota.

O velho sorri. Ele pinça com delicadeza uma das joias deixadas por Ainda.

— Cada um deles é único, garota. Há trilhões, todos diferentes e belos. Como eu poderia não notar? Divertiu-se?

— Não sei o que entende por diversão, Ourives. Fiz o meu trabalho.

— Isto eu verei agora — ele aproxima o anel dos olhos cobertos por lentes — Parece bom.

Ourives devolve a joia com cuidado à mesa. Pinça o outro anel e apenas gesticula negativamente.

— América pré-colombiana?

Ainda lhe responde:

— Guarde bem o meu anel de banho.

— Ele não é seu — o velho se zanga. — Apenas serve em seus dedos, há uma grande diferença. Nunca se esqueça de que há pessoas dentro dessas joias e de que são de Noiva.

— Que bicho te mordeu? Eu só estava brincando.

— Serve a dona das joias?

— Tinha me esquecido completamente. Como eu estou?

Ourives levanta os olhos mais uma vez para analisar a dama. Ela está vestida como uma nativa marajoara.

— Mude para o seu vestido de sempre — ordena o homem.

Ainda se chacoalha por alguns segundos e o corpo se transforma em um vestido longo, leve com decote no busto.

— Agora vá, está atrasada. Tenho que polir e guardar os anéis.

A mulher deixa a ourivesaria e caminha pelo corredor de pedra iluminado por archotes. Ouve o barulho de fechadura e nota uma mão enluvada entre as duas portas de madeira.

— Como vai? — Conde pergunta.

É um homem de trinta e poucos anos, de rosto limpo e olhos azuis. Usa uma peruca alva e extravagante, uma casaca azul-marinho com botões dourados, calças brancas e botas.

— Atrasada? — Ainda lhe fala.

— Impossível — o jovem se curva para beijar a mão de sua dama. — Não existe tempo neste lugar.

— Tem coragem de dizer isso à Noiva?

— Eu não preciso dizer, ela sabe.

A dupla segue pelo corredor iluminado precariamente até desembocar em uma escadaria de carvalho. Galga os degraus em espiral até chegar ao salão. Há uma festa. A lareira nunca foi acesa, as janelas estão abertas e o vento balança as cortinas empoeiradas. O local cheira à tinta fresca e está cheio. Damas e cavalheiros de sempre; que fazem os mesmos gestos, bebem as mesmas bebidas que nunca terminam. No meio do salão uma dama e um cavalheiro valsam. Ela deixa que ele balance o seu corpo delicado, coberto por vestido de noiva, amarelado. Os cabelos estão presos em um coque elegante, o pescoço, suado, enfeitado por colar de pérola e as orelhas por brincos circulares, dourados.

Ainda é conduzida por Conde até o seu ponto fixo. Eles dançam, nasceram para aquele momento. Estão presos a ele. Os movimentos são precisos, ganhados por prática infinita. A sensação do casal é a mesma de todos os presentes: eles estão em seus lugares. Permanecer se confunde com o ser.

A música termina. Ocorrem aplausos. Noiva faz uma reverência e pede licença ao seu par. Aproxima-se de Ainda e Conde.

— Acho que podemos começar — fala ela enquanto se serve de uma taça de espumante.

É uma mulher esguia, de olhos acinzentados, cabelos castanho-escuro.

— Se me dão licença —fala Conde, afastando-se.

Noiva devolve sua taça ao serviçal que ficou de prontidão e estende as mãos preenchidas por anéis e pulseiras para Ainda.

— Observe, não são joias incríveis?

A noiva arranca com os dentes um dos anéis e entrega à Ainda. A dama agradece, curvando-se. Afasta-se. As mãos tremulam, quem encontrará dentro do acessório? Por mais que esteja habituada a invadir vidas a sensação sempre parece nova. Fora do Oito tudo é tão vivo, tão mágico. Lembrava-se perfeitamente quando ganhara o seu nome. Quando, na verdade, batizara a si própria, usando um dicionário encontrado no mundo das joias. Um código que continha todas as palavras e significados. Já no início identificou a palavra que a definia. Ainda: advérbio (depois ela procurou o que significava advérbio), até agora, até este momento, presente.

— Definem-me sem me conhecerem!

Curiosa, astuta, a cortesã de até então anotou em um pedaço de papiro a palavra Ainda e seu significado. Retornando ao Oito mostrou a todos que haviam escrito sobre ela: aquela que está presente, até agora, até este momento. Ourives que não compreendia que o seu nome na verdade era uma profissão no mundo das joias não entendeu o motivo para um novo nome. Comentou que Ainda tinha uma imaginação muito fértil achando que joias teriam escrito sobre ela. Que importância uma cortesã poderia ter? Noiva, por sua vez, associou imediatamente o nome à criatura e decretou que dali em diante a sua amiga passaria a se chamar Ainda, o que ajudaria a diferi-la das demais cortesãs. Conde não gostou do nome, assim como Ourives não compreendia como alguém que foi criado para ser algo, pudesse simplesmente mudar para outra coisa. Que bobagem! Cortesã é cortesã e ponto. Era a sua cortesã. Houve confusão no início, já que outras cortesãs questionaram Noiva do motivo de elas não possuírem nomes exclusivos. Noiva foi categórica:

— Vocês não são minhas amigas, não recebem joias de mim!

A coisa ficou por isso mesmo, não antes de se estabelecer grande inveja entre as cortesãs.

 

Ainda fecha os olhos, coloca o anel no dedo indicador da mão esquerda.

 

Está em Aleppo do dia 15 de dezembro de 2006, dentro da vida de uma menina de dez ano que viverá apenas até os vinte. Sim, ela consegue ver toda a vida contida no pequeno círculo prateado colocado em seu dedo. É como uma fotografia; de uma vez. Nome, profissões, preferências, crimes, tudo está lá. Outra criança, outra guerra.

É um pequeno quarto, há outro infante dormindo na cama ao lado. Ela chacoalha a criança síria. Conta-lhe o fim da sua vida. Ela será violentada, espancada e quando não souberem o que fazer, a matarão. Implorará para que tudo acabe logo, mas não acabará.

— Eu posso salvá-la. Estou aqui para isso.

Então, Ainda cumpre sua missão. A menina síria está presa à vida que teve até aquele momento e protegida do fim violento. A cortesã deixa o quarto, está vestida com jeans e camiseta negra de mangas compridas. Na cabeça o véu negro deixa apenas o espaço dos olhos descobertos. Um fato importante sobre Ainda quando está inserida no mundo das joias é que sua aparência se adapta automaticamente ao ambiente. Ela não tem certeza, mas acredita que todos do Oito possuem esta qualidade, já que certa vez questionou Ourives e ele lhe respondeu que todos no Oito são belos por natureza, verdadeiras obras de arte feitos para se harmonizarem com o espaço que ocupam.

Ela desce as escadas, cumprimenta algumas pessoas. Ganha as ruas. Quer observar a manhã. A imagem trêmula. Os prédios intactos de 2006 são sobrepostos pelas ruínas de 2016. Bombas. Ainda se assusta, nunca vai se acostumar com o fato de observar o mundo sem os limites temporais. Cinza, não há sol. É melhor voltar. Ela puxa o anel do dedo.

A ourivesaria.

— Deixe-me ver — fala Ourives.

Ainda lhe entrega o anel. Ourives observa a joia. Sopra. O metal embaça. Pega uma flanela e passa por ela.

— Parece bom — ele se levanta.

Vai até a estante e puxa uma caixa de madeira. Deposita o recipiente sobre a mesa e o abre. Guarda o anel.

— Assim que ela enjoar dos que está usando me procurará para reaver estas joias — ele se refere à Noiva.

— Pensei que eles nunca se repetiam.

— Tudo se repete — Ourives fecha a caixa e a devolve à prateleira. — Notou algo estranho?

— Deveria? Tudo parece normal.

— Não acha que as cortesãs estão diminuindo?

— Parece o mesmo número.

— Tem que ser o mesmo. Diga à Noiva que preciso falar com ela.

— Está bem.

— Antes, porém, vá tomar um banho — Ourives joga um anel para Ainda.

Ela o agarra, já reconhecendo sua joia preferida.

Ainda sabe pouco do marajoara contido em seu anel preferido. Da última vez o ordenou a pescar distante dali. Ele não é um homem de muitas palavras. Naquele dia, possui dezoito anos e acredita estar diante de uma divindade. A divindade que representa a noite, o fim, a morte.

— Ourives acha que o Oito está mudando. Acha possível? — ela indaga ao marajoara, enquanto se despe.

— O mundo muda.

Ainda concorda. O nativo se afasta.

De volta ao salão de festas, Ainda finalmente percebe algo de errado. Antes que pudesse dar o recado de Ourives à Noiva, ela nota. A mesma música, os mesmos casais, mas Conde está ausente.

Continua…

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