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III – Bem-vindo, Antenorpor

Antenor dos Anjos é aposentado que gosta de escrever poesias e vive num sítio do interior do Estado de São Paulo. Hoje é o seu último dia. Ele nasceu na cidade de São Paulo, na década de trinta, filho de um comerciante com uma dona de casa. Teve quatro irmãos, um morreu antes da mocidade, outro se tornou padre. As outras duas, mães dedicadas. Estudou em boa escola, teve apenas um emprego em toda a vida, o de bancário. Casou-se com a primeira namorada, teve dois filhos. Adquiriu um carro de segunda mão de um colega do serviço e permaneceu com ele até o final. Pagou aluguel na capital por todo o tempo em que esteve empregado, mudando-se mais ou menos na época da aposentadoria para o sítio do sogro, então herdado por sua esposa. Reformou a velha casa, fez piscina, encheu o velho açude de peixes, ousou plantar, consumiu os dias. Por insistência dos filhos, recentemente adquiriu um carro atual, mas já não dirigia. Há três anos perdeu a esposa, o que o fez intensificar sua produção literária. Ele sabe que tem pouco tempo; nota as engrenagens da vida se desgastando, dando sinais de que a máquina irá parar. Já teve medo desse momento, mas não mais. A idade avançada o confortou, mostrou-lhe que o fim é necessário. Escreveu sobre o tema por inúmeras vezes e pediu perdão pelo clichê. É que o assunto fascina.

Como um Déjà vu ele observa a mulher em sua frente que tem idade para ser sua neta. Antenor sabe que ela não é sua parenta; que não é feita de carne e osso como ele. Em sua crendice a imagina como um anjo. No entanto, Ainda é feita de tinta.

O anel sem detalhes que contém a existência do bancário aposentado é notado. Ele sorri. Um riso murcho, desdentado. Ele brinca com o que vê. Depois de dizer que não sabia que anjos eram casados, percebe que já havia dito isso antes. O sorriso desaparece. Que está acontecendo? Senta-se. Senta-se mesmo ou sonha? Tem a impressão de que a diferença não é importante. Sabe que aquele momento é decisivo. Tem esperança de em breve rever a companheira de tantos anos.

— E Agnes, como está? — aquela pergunta também é repetitiva, mas ele só toma conta depois de fazê-la.

Ainda se senta ao lado do aposentado. Usa a tática que aprendeu dentro da vida de Antenor: mente.

— Está bem, não vê a hora de reencontrar o senhor.

— Então é assim que termina?

Continua mentindo:

— O senhor não sentirá dor.

Ainda sabia que a joia era segura, por isso a roubou. Passou por inúmeras vezes por aquela existência sem interferir nos dias de Antenor. Sua preocupação era cuidar da Pintura. Zelar para que ela ficasse escondida. Enquanto o quadro estivesse a salvo, ela também estaria. Ela leva o pequeno relógio prateado até os olhos. Está na hora.

O médico abre a porta da UTI e gesticula negativamente.

Fumaça de cigarro. Passos nos corredores. É uma casa com assoalho de madeira. Gritos da mãe, a voz da parteira. Antenor está nascendo. Ainda dobra os dedos e observa o seu anel desgastado. Não tem coragem de tirá-lo; não pode voltar ao Oito. O que diria a Ourives? Que lhe roubou um anel? Ele entenderia que a ação visava salvá-lo também! Que ela sabia a verdade! Que tinha descoberto do que todas as coisas são feitas e como poderiam ser desfeitas a bel prazer de um louco? Tudo está bem. Tudo permanecerá bem. O baile está ocorrendo, embora ela e Conde não estejam mais presentes. Noiva usa as joias reluzentes de Ourives. Uma lágrima escorre dos seus olhos. Mais uma coisa que aprendeu com as joias: chorar.

Não há do que reclamar, afinal está salva. Passa com o dorso da mão sobre os olhos. Salva e sozinha. Ainda desenvolveu uma teoria particular sobre o tempo, conceito que se aplica apenas aos seres humanos (é assim que as joias gostam de ser chamadas). O tempo se mede pela mudança. Apenas isso pode designar esta força cósmica que atua dentro dos anéis, brincos ou colares feitos por Ourives. Quando algo muda, há tempo. Para ela tudo é igual, portanto está imune ao envelhecimento e, de um modo que ela odeia admitir, à vida.

Afasta-se da porta. Deixa a casa, caminha. O mesmo vento, o mesmo sol, os mesmos pássaros. Dor, novidade. Demora um pouco para que Ainda assimile que houve um som de disparo de arma de fogo. Há um buraco no meio do seu peito. Ela enfia o dedo no orifício recém adquirido. Úmido, um líquido pastel escorre. Isto não deveria ocorrer. Definitivamente, algo está errado. Novo disparo, a cabeça pende violentamente para trás.

Escuro.

— O quadro! Diga-me o local em que o escondeu! — Água de um balde de madeira é jogada em Ainda.

Ela recupera a consciência. Está no Oito, mas não reconhece o local. Encontra-se amarrada em uma cadeira. Em sua frente uma mulher um pouco acima do peso, de busto avantajado, vestimenta encardida, cabelo claro, curto, desgrenhado. Há vento, vozes. Uma multidão está próxima da mulher que a aprisionou. Eles parecem exaltados, empunham armas. Corpos estão aos pés de Ainda.

— Olhe para você!

Então, Ainda fita o próprio corpo. Está ferida? Como isso é possível? Ela geme. A mulher sorri. Diz:

— Eu tinha certeza de que você não sabia que podia ser ferida. Poucos sabem. Sou Liberdade, Pintor me contratou para recuperar sua Pintura. Diga-me onde ela está e isso acabará.

— Eu não direi!

Um poderoso soco é desferido contra o rosto de Ainda. Dentes se soltam em sua boca. Dor, que terrível! Nunca havia experimentado esta sensação. Por mais que estivesse acostumada a presenciar humanos sofrerem, jamais pôde entender o significado de sofrimento. Ali, amarrada e sendo agredida sente-se humana como nunca havia imaginado. Tão frágil…

A agressora se abaixa. Encara Ainda.

— Morreria ao invés de me entregar o que quero?

Morte. Outro conceito inimaginável para a cortesã, mas agora tão próximo. Dor ao extremo; sofrimento máximo antes da extinção.

— Por favor, não me mate — Ainda chora.

Nota que a mulher esboça confusão. É sua deixa para contar a ela o que sabe sobre a Pintura e o Pintor; sobre o que ocorreu com Conde. Liberdade escuta tudo atentamente. Até mesmo seus comparsas eufóricos fazem silêncio. O assunto é de interesse de todos.

— Somos feitos de tinta! Ele me criou, pode me destruir! Ele criou você e este lugar e nada pode impedi-lo! — fala Ainda aos prantos.

— Você mente. Não sou como você, mas devo admitir que seus recursos são interessantes. Estou fadada a matar os nobres e tomar o poder! Não sabia que existia um mundo em que fosse possível fazer outra coisa — ela leva um anel prateado na frente dos olhos.

— Como conseguiu esta joia? — Ainda indaga.

— A esposa do príncipe me deu. Não antes de eu torturá-la para que me explicasse como você havia desaparecido —Liberdade sorri diabolicamente.

Ainda se enfurece, outra sensação humana. Tenta se soltar, em vão.

— Agora me conte a localização da Pintura — diz Liberdade.

— Nunca.

— Isto, veremos — Liberdade pega o seu rifle com baioneta.

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