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II – O que há de errado?por

Noiva está na Babilônia de três séculos anteriores à Era Cristã. O seu corpo bem desenhado se estende por um avantajado e aconchegante leito. É noite, tochas iluminam suas curvas. Ela tem um cálice perto dos lábios. O homem em sua frente está nu. É forte e belo. Ele não sabe, mas morrerá em breve. Ela o visita vez ou outra com o intuído de amá-lo. No Oito ela está fadada a dança eterna com Príncipe, mas nunca poderá conhecer seus aposentos.

— Quando me dará a imortalidade? — Ele pergunta.

Ela sorri. A bebida antiga é forte.

— Você a tem. Todos a possuem.

— Faça-me um deus como você e então reinaremos juntos.

— Não gostaria de ser como eu. O que me distrai são as joias. Apenas o brilho delas me fascina…

— Eu posso te ajudar. Sou um exímio estrategista.

— Tenho certeza de que sim. Ajuda-me com o seu corpo.

Os olhos de Noiva piscam por algumas vezes. Ela está sonolenta, adapta-se rapidamente àquele mundo. Dormir é algo incrível e suicida ao mesmo tempo e mesmo desejando adormecer por algumas horas, não consegue entender como o seu amante perde seu parco tempo com isso. Ele tem poucos dias. Ela o acorda delicadamente. Ele se vira para ela.

— Fique comigo — diz.

Ela ri.

— O que me sugeres é como se eu pudesse habitar em meus acessórios ao invés de em um lugar propriamente dito. Não passas de uma joia. Uma bela, é preciso que se diga, mas não mais do que isso. Como posso caber em algo que foi feito para me embelezar?

Noiva virou o rosto e mostrou o brinco de argola dourado ao homem que pouco lhe compreendia.

— Todos os deuses falam em enigmas?

— Não são enigmas. Tua mente é que não pode me compreender.

Então, um cheiro forte invade a narina de Noiva. Ela já sentiu aquele odor antes; é familiar, é natural. Os olhos procuram pela direção apontada pelo nariz, as mãos tocam a seda. Úmido.

 

Ainda percorre por todo o salão de festas em busca do seu par. É como se tivessem lhe arrancado um pedaço. Um aperto no meio do corpo, as pernas vacilam. Que é isso? Ela se encosta em uma parede, está úmida. Leva a mão perto dos olhos. Tinta? O líquido cor-de-pele escorre por seu braço e ela o observa admirada.

— Por aqui! — Uma voz distante.

Ainda se vira, não identifica o falante. Os demais participantes da recreação agem como se nada estivesse acontecendo. A tinta lhe escorre pelo cotovelo.

— Aqui, plebeia! — Finalmente ela identifica o falante, Príncipe.

Ele está em frete a porta que dá acesso ao salão. É um homem alto, forte, olhos castanhos e de poucos cabelos. Traja sua roupa de gala, um casaco negro com detalhes dourados, calças negras e botas lustrosas. A espada prateada pende da cintura, do lado esquerdo. Ainda força os passos até ele. Antes de chegar, o membro da realeza estende sua mão e a agarra.

— Sei quem poderá ajudá-la.

A tinta cor-de-pastel pinga no assoalho enquanto Ainda é arrastada por Príncipe. Ela não compreende o que se passa. É como se estivesse derretendo. Os passos são largos e por um corredor que a cortesã nunca havia experimentado. Que mistérios ainda haviam naquele lugar? Que estava acontecendo com ela? Pensou no homem que a conduzia com tanta determinação. O que sabia dele? Quase nada. Era o par romântico de Noiva e todos estavam ali por causa do seu matrimônio. Conde era seu amigo de infância, ela, apenas a cortesã do amigo de Príncipe. Outros integrantes da nobreza também dispunham de acompanhantes. Alguns, de esposas. Cortesãs, marquesas, condessas e duquesas, termos que pouco diferiam para Ainda, mas que pareciam ter importância entre os presentes. Certa vez ouviu dizer que Príncipe subiria ao trono; que seria rei e que Noiva seria rainha.

— Chegamos.

Um cão amarronzado os encara. Junto do animal está uma anã, cuja cabeça é desproporcional ao resto do corpo. Ela tenta acalmar a fera. Ainda observa o local. Aparentemente está em uma sala de estar. Há ao fundo uma escada, ao lado esquerdo um quadro não terminado. Em sua frente um espelho, mas a imagem que está refletida nele é fixa, trata-se de um rei e uma rainha. Não há mais ninguém no local além do cão e da anã.

— Afasta tua besta, pequena mulher.

A anã obedece não antes de observar o líquido pastel pingar do cotovelo de Ainda.

— Vá chamar o Pintor, rápido.

A pequenina se afasta puxando o seu cão. Príncipe se volta para o espelho e saúda os reflexos:

— Meu pai, minha mãe.

Eles assentem sem palavras. Pintor adentra no salão, apressado. Está com um pincel em uma das mãos e uma paleta na outra. É um sujeito alto de cabelos compridos e negros, armados. Queixo pontudo, assim como o nariz. Testa avantajada, sobrancelhas grossas e bigode grosso. Veste-se com um colante negro com detalhes em vermelho. Por baixo usa camisa de mangas brancas, toda manchada de tinta.

Sem esperar ordem, aproxima-se de Ainda e a analisa profundamente. Agarra sua cabeça e aperta suas fontes, mexendo com a cabeça ora para cima, ora para baixo.

— Sente-se — ele diz.

A cortesã obedece. Ao colocar as mãos sobre as pernas percebe que a direita está deformada, semelhante a uma bola de papel amassado.

— Que houve comigo?

— Solvente, de certo.

— Como é?

— És um dos meus desenhos, cortesã. Eu a fiz.

— Dizes que somos todos criações sua?

— Obviamente. Eu mesmo sou uma criação minha. Entretanto estou descontente com minha obra.

Pintor começa a misturar algumas cores. Aproxima-se do quadro gigante que está no canto do salão.

— Não está bom. Definitivamente. Removi várias personagens da pintura por achá-la poluída demais. Recentemente apaguei o seu par de dança por entendê-lo deslocado, insosso. Acho que parte do solvente respingou em você. Não quer aproveitar para mudar? Talvez ares de condessa, mais carne, cabelos dourados.

— Nada disso. Estou bem assim.

— Deixe-me corrigi-la.

Pintor começa a delinear com habilidade os dedos faltantes de Ainda. Depois de um tempo os dedos estão perfeitos, a cortesã dobra-os para testá-los.

— Há tanto trabalho… — lamenta o artista.

Ainda compreende que aquele homem é quem decide quem vive ou morre no Oito. Sente medo, é muito poder para um único ser.

— De toda forma tenho pressa. Vês? Há um quadro que preciso terminar. Ele será grande! Grandioso!

Príncipe tem a mão no queixo e observa o grande quadro com atenção. Não pode compreender os desenhos, mas jamais admitiria. Limita-se a dizer, vez ou outra que o trabalho está indo bem; que contrataria Pintor para fazer o seu retrato de rei, um dia.

— Não percebe que este sujeito pode matá-lo? — Fala Ainda a Príncipe.

— Não diga tolices! Eu sou um membro da realeza e ele apenas um artista.

Ainda desiste de explicar a Príncipe os motivos da sua preocupação. Sabe que o ego do nobre não o deixará notar a verdade. Ela pensa em correr dali, mas o que adiantaria? Suplicar para que  Pintor não modificasse o quadro, devolvesse Conde? Não funcionaria. Então uma ideia eficiente espeta-lhe. Roubar o quadro! Já havia roubado algo antes, ninguém notou. Uma discreta aliança que nunca tivera coragem de usar, mas que mantinha escondida entre os seios.

— Este músico também não me agrada. Que farei com ele? — Pintor divaga ignorando a presença de Príncipe e Ainda.

A cortesã se aproxima do quadro. Encosta o ombro na moldura, saca a aliança dos peitos. Coloca-a no dedo recém adquirido. Ela e o quadro desaparecem do Oito.

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